21_10
LÓGICA MENTIROSA.
20_12
UMA ORAÇÃO DE NATAL.
UMA ORAÇÃO DE NATAL.
“Mas
tu, Belém-Efrata, tão pequena entre os clãs de Judá, é de ti que sairá para mim
aquele que é chamado a governar Israel. Suas origens remontam os tempos
antigos, os dias do longínquo passado. Por isso, Deus os deixará, até o tempo
em que der à luz aquela que há de dar à luz. Então o resto de seus irmãos
voltará para junto dos filhos de Israel. Ele se levantará para os apascentar,
com o poder do Senhor, com a majestade do nome do Senhor, seu Deus.” Miquéias
5, 1-3.
Pai, tu que reinas absoluto em teu universo
sem fim, tu que detém todos os poderes existentes, tu que és o “porque” de
todos os “por quês”, conceda-me a honra e a sabedoria de elevar-lhe esta prece
em tua homenagem e em meu favor.
Pai.
Tu que sendo carne, pensamento e verbo só
poderia se manifestar de modo pessoal e intransferível a cada um de seus filhos,
numa aula particular que começa com Abraão, o primeiro aluno, e dura milhares
de anos. O universo não é ti, o universo está em teu bolso, pois de outro modo
não se sustentaria em meio ao seu próprio caos.
Tu que profetizara quase mil anos antes a
vinda de teu Filho, cumprindo gloriosa e majestosa preconização na figura de um
homem simples, de uma família simples e de uma história simples para que ninguém
possa apelar para a ignorância no fatídico dia do juízo que há de vir a todos.
Tu que glorificaste a feminilidade em meio
a uma terra rude e cruel numa pequena camponesa, que conhecemos todos nas
nossas lembranças maternas. Sendo que, se tu a chamou de mãe, eu não tenho dignidade
de chamá-la de mulher, mas, apenas e ousadamente, de Senhora.
Tu que institucionalizara em Pedro tua mão
terrena, feita de barro, santa e profanada; que luta e marca a hora no relógio
de sua torre, inclusive para aqueles que fazem questão de andar fora do
horário.
Tu que discretamente orienta os
mantenedores da tradição contra aqueles que querem construir um castelo de
sombras no ar para ser habitado por zumbis emancipados da real liberdade.
Tu que caprichosamente só concede o entendimento
do alto e do exterior para aqueles que interiormente se diminuem. Senhor, só Tu
és capaz de aplicar a justiça e retirar esse mesmo entendimento se uma vez essa
regra é quebrada, sendo também, capaz de misericordiosamente retomar Teu santo
entendimento uma vez restabelecida a regra de ouro.
Tu que organizaste o campo de batalha e
planta dúvidas nos corações crentes e suspeitas nos corações não-crentes para
que todos possam desejar o ar enquanto temos a honra de permanecer no campo de
luta.
Tu que tudo isso pode, fizeste e criaste;
não permita que eu abra minha boca para difamar o que desconheço, nem que zombe
sobre o que ignoro e nem que filosofe sobre o que nunca estudarei honesta e
corretamente, por não abrir todo o meu coração para compreender; como fazem Vossos
inimigos, ou, melhor dizendo, os instrumentos humanos de Vosso Inimigo.
Senhor amarre-me bem longe dos que
acreditam ser inteligentes demais para crer, dos que estão enfeitiçados pela
vaidade intelectual, dos que terrestrializaram o pensamento, dos que lhe vêem
apenas como doutrina seca, dos que não fazem exame de consciência por medo da
sinceridade, de todos os fanáticos e de todos os inconsequentes.
Senhor indique-me a cada momento o caminho
de minha autoconsciência, me leve ao alto; pois no fundo do vale da ignorância está
os que ignorando tudo, ignoram o todo que não sabem, sendo que por isso mesmo
acreditam tudo conhecer. Por piedade Senhor, não permita que eu me junte a eles,
não permita que eu creia em tudo, por medo de crer em Vós.
Senhor retira-me da festa das maldades e lançai-me
na masmorra das beatitudes, porque, por mais que a sabedoria tomista eleve meu
pensamento e meu coração aos portões do céu, nesta vida jamais poderei
renunciar ao auxílio do agostinianismo e suas sábias e indulgentes chicotadas.
Senhor, que eu não seja ressentido, que eu
não seja alienado e que eu não fuja. Nem em nome de Nietzsche, nem em nome de
Marx e nem em nome de Freud. Nem aqui e nem além.
Senhor, daí a sua misericórdia e encurte a
estadia aos que padecem no purgatório, estendei a mão aos meus e me desviai de
tal lugar.
Senhor, dai-me o poderoso senso das
proporções. Tire de mim o fascínio dos objetos, mas que em minha consciência eu
seja digno de vislumbrar o imanente e o transcendente. Que minha vaidade não me
jogue no tenebroso mar das problematizações infinitas e diabólicas, mas que eu
creia, creia na pessoa do seu divino Filho. Jesus.
Que seja feita a justiça e que Vossa espada
misericordiosa sangre meu peito injusto, que suas mãos benevolentes joguem meu
corpo pecador na fogueira da redenção, e que, esta consuma em sagradas chamas
toda a minha vaidade. Que Vosso chicote caridoso açoite a minha ignorância e
que Vossos pés benditos pisoteiem meu rosto contra o chão duro da realidade.
Por piedade Senhor, pela mais excelsa das piedades peço-Vos que seja implacável
na aplicação da justiça, peço-Vos que não desista de açoitar minha carne até
que o regato de meu espírito encontre o oceano de tua glória.
Que seja feita a justiça e que eu não seja
vítima nem da condenação e nem do crime que não cometi.
Que seja feita a justiça e que o Senhor
cuspa a tua verdade em meu rosto, humilha-me publicamente com tua bondade,
tortura-me com tua sabedoria até eu confessar que te amo por toda a eternidade.
Que seja feita a justiça e que se eu sofrer,
adoecer, for injustiçado, me tornar escabelo aos pés dos meus inimigos ou for
mal-compreendido, que toda glória seja para ti Senhor. Porque eu aposto minha
vida que a alma é imortal.
Quatro mil e quatro anos teu povo esperou
por uma estrela na noite, mais quatro mil e quatro anos poderemos ter de
esperar pela manhã gloriosa.
Bem sei que Tu não precisas de louvores nem
de adoração, mas bem sei, como entenderam os reis magos, que se eu não te
louvar e glorificar serei esmagado pela minha mediocridade, pois só te louvando
não sou um ignorante, só te bendizendo não sou um escravo e só te adorando não
sou um verme.
Por fim, peço-lhe Senhor que me conceda a
certeza de Jô, quando este corria sem olhar para trás de um mundo em decadência
e o ímpeto de Jacó, quando este se atracava em violenta pancadaria contra um
anjo do Senhor, na esperança de receber deste a Vossa santa benção. Conceda-me
a insistência para compreender que minha capacidade e minha responsabilidade neste
mundo se limitam, sempre e apenas, ao próximo passo que posso dar e que o
caminho total, como qualquer destino, eu tenho apenas a graça de vislumbrar,
sonhar e intuir, mas nunca de decidir e de determinar, e se uma vez assim faço,
quebro Vossa regra de ouro e me torno um porco imundo mastigando pérolas, que
no apogeu de seu desequilíbrio afetivo não se questiona e logo não se
compreende, e que mesmo assim, vive a postar belos nada pelo mundo afora no
iludido afã de redenção existencial por um amontoado de migalhas curtidas no
vazio. Pois, quem não tem fé que atire a primeira hipótese, quem não crê em Ti
que atire a primeira coincidência e quem não crê no poder benéfico da religião,
que construa uma civilização.
Que a estrela do Oriente brilhe
em todos os corações, Amém.
“Tendo,
pois, Jesus nascido em Belém de Judá, no tempo do rei Herodes, eis que reis
magos vieram do Oriente a Jerusalém. Perguntaram eles: onde está o rei dos judeus
que acaba de nascer? Vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo.” Mateus
2,1-2.
20_07
A GRANDEZA...
Escanteio
para o Nacional, trinta e oito da etapa complementar, bate Taco na área, tira o
goleiro do Juventus. Domina Machado no meio do campo, avança e tenta levar o
Juventus nesse final de jogo, Machado avança e tem Guimarães mais a esquerda.
Guimarães domina e toca para Ramos na direita que bate forte, mas Josiel pega
firme.
Tintas Trindade, qualidade por baixo preço.
Tintas Trindade, a tinta que passa e ficaaa...
O
jogo vai se aproximando do seu final, o empate persiste, o clima de prorrogação
vai tomando conta e a vaga para a final do campeonato brasileiro permanece em
aberto.
Josiel sai jogando com Cuíca no meio, Cuíca
domina e liga rapidamente Taco lá na frente. Um lenços, dois lençóis, meu Deus
do céuuu... Mandou a bombaaaa... É gol... Gooooooooooollllllllllll...
“Felicidade... Brilha no ar, como uma estrela que não está
lá...”
Gooooooollll....
gol, gol, gol,...
Imagino
que o inferno seja um lugar onde dois times de futebol se enfrentam
eternamente, mas não exista nenhum gol, não existam balizas para demarcar os
tentos e não existam objetivos; assim, os jogadores se enfrentam na ânsia de
possuir a bola, porém sem tem em mente para onde irão depois. Os times jogam,
duelam, lutam e nunca chegam a lugar algum. Rodam o campo, correm pelas
arquibancadas, saem do estádio, jogam pelas ruas da cidade e chegam as
plantações e as florestas, mas nunca marcam o alentado gol salvador. Os diabos
mais cruéis seriam os jogadores mais habilidosos que com dribles encantadores
hipnotizam e seduzem mais e mais os condenados a peleja eterna para lutarem com
mais garra, mais vontade, mais ânsia e ilusão; sonhando com o gol que nunca
chegariam a marcar.
E o
céu, como seria? Bem, sobre o céu nos tivemos a graça de deslumbrar sua divina
imagem no lance do gol de Taco domingo último, no estádio Comendadorzão. Ali A
lógica, o destino, a mágica e a perfeição se uniram para mostrar a
transfiguração do que seja a gloria eterna. As palavras, como já dizia o
filósofo Platão, não são suficientes para descrever o supremo bem, portanto não
podem descrever o que ali aconteceu. Oxalá, um dia eu tenha a graça de escrever
um livro tentando contar um pouco sobre tal acontecimento.
O
futebol, como muitos dizem, é ilusório, é idiotizante, é mentiroso e, acredito
eu, por isso mesmo humano demais. Futebol é símbolo e fato, é a imitação e o
real, é a forma simplicidade e a complexidade tentando se sobrepor uma a outra.
Não me iludo com o futebol, me encanto sem querer.
Imagino
que quando o Juventus desceu num forte contra-ataque, depois de um escanteio do
Nacional cobrado pelo próprio Taco, ele deve ter pensado que tudo estava
perdido, que a sua chance de ser campeão no seu país, depois de ter sido
campeão correndo o mundo, estava perdida. Quantas vezes uma pessoa não se vê
perdida momentos antes da gloria lhe dar uma baforada? Quantos momentos de
tristeza não foram sucedidos das maiores alegria que uma pessoa já teve na sua
vida? Quantas lágrimas de tristeza ainda estavam úmidas na face, enquanto as
lágrimas de alegria já corriam por sobre elas? Mas o ataque do Juventus
desperdiçou a chance clara de fazer o gol e numa reviravolta existencial, em
poucos segundos depois, a bola vinha magnetizada de bênçãos para Taco,
malabaristicamente, dar uma chaleira num adversário, depois um lençol em outro
e por fim, acertar um chute cujo voo fez um ângulo impossível fisicamente para
morrer, ou viver para sempre, no fundo das redes. Quando Taco correu gritando
para abraçar o pessoal do banco de reservas, exorcizava tristezas, angustias,
magoas, dores, ressentimentos e desilusões de uma nação de torcedores e
admiradores que gritaram junto com ele. Uma seleção de Pelés, Maradonas,
Garrinchas, Beckenbauers, Rivelinos, Zidanes, Di Stéfanos, Sócrates e Zicos e
Ronaldos se metamorfosearam em um simples Taco. Em um simples José Aparecido de
Souza. Coisas do futebol e dessa vida de ilusões.
Muito
provavelmente em cem ou duzentos anos não sobrará futebol, porém acredito que
sobrará sim o gol de Taco nessa semifinal de brasileirão, a vida seguirá, mas
por hora só nos resta esperar até o próximo domingo para ver quem será o
campeão do ano, quem será ungido de gloria e esplendor pela bola e suas forças
enigmáticas que a circundam pelo universo inteiro.
...
Gol, gol, gol, golaçoooooo de Taco.
“Quantos jovens te procuram, quantas
esperanças tu vestes, quantos sonhos realizados, quantos atletas fizestes. O
que é ruim logo se acaba, o que é bom permanece...”
É do
Nacional, é do Nacional, é do Nacional... A paixão da exceção... Um a zero e o
Nacional fica com a mão na vaga da finalíssima... Uma pintura, uma obra prima,
uma mágica. Espetacular, sensacional, magnífico, gol de Tacooo... Como
descrever esse lance? Cuíca lançou a bola, Taco vem na corrida e com o lado
externo do pé já dá um lençol no primeiro adversário, faz um giro de corpo e
sem deixar a bola cair dá outro toque na bola e outro lençol em outro
adversário e mais um giro de corpo para pegar a bola, sem deixa-la cair e
mandar um petardo de mais de trinta metros de distância, para encaixar a bola
no ângulo. Uma obra prima fruto de um design divino aqui no meio campo do
Comendadorzão! Um resplendor aberrante! Uma apoteose estética de uma máquina
humana de jogar futebol chamada Tacooo... Demais, demais, demais... Fala Eloy
Valadares, fala o que você viu? - O ataque do Juventus parecia muito bom, mas
apesar dos belos passes de Machado para Guimarães e de Guimarães para Ramos, o
chute ao gol deste último foi bem defendido pelo goleirão Josiel, que por sua
vez saiu jogando rápido com o meia Cuíca que lançou Taco lá na frente e este
foi monumental... Em dois lençóis magníficos ele tirou dois adversário e num
chute sem-pulo a bola foi direto no
ângulo do gol do arqueiro juventino... Ai amigo, ai já era, um a zero para o
Nacional e agora faltando menos de cinco minutos para o fim da semifinal do
brasileirão...
“Coração
apaixonado. Só
escuta a própria voz e nada mais...”
Tempo e placar do jogo...
Tintas Trindade, qualidade por baixo preço.
Tintas Trindade, a tinta que passa e ficaaa...
UM SINAL
Ressentimento amoroso.
Igualdade privilegiada.
Respeito belicoso.
Ignorância idolatrada.
Silenciar pela liberdade.
Extorquir toda verdade.
Deturpar por maldade.
Narrativa como realidade.
Tudo é normal.
Rejeitados para humilhar.
Toda lei explodiu.
Perseguidos para maltratar.
Tudo é natural.
Pequenos para dominar.
Tudo é espaço vazio.
Sem moral para amar.
Um Sinal no céu.
Como moda e alucinação.
O Reino como réu.
Decadência e comemoração.
Manipulação nervosa.
Estratégia e vingança.
Justiça rancorosa.
OS ANTIFAS E O JOGO DE PALAVRAS.
SAÚDE E ECONOMIA
18_10
O CAMINHO DO MILITANTE REVOLUCIONÁRIO.
O FASCISMO DOS QUE SE ACHAM ANTIFASCISTAS.
Umas das técnicas dos seguidores de Mussolini, líder fascista italiano, para se chegar ao poder era de colar um rótulo (mentindo ou forçando muito a barra no argumento) nos adversários políticos para com isso facilitar a perseguição. Assim, católicos se tornaram idolatras, ciganos se tornaram vagabundos, judeus se tornaram ladrões e democratas liberais se tornaram entreguistas nas bocas dos fascistas italianos. Ou seja, praticavam a divisão de classes numa luta do “nós” contra “eles”.
18_03
PRINCÍPIO DE XADREZ POLÍTICO.
18_01
ATO PENITENCIAL II
ATO PENITENCIAL
POBRE PODER.
SEM TEVÊ
A IGUALDADE
MACHADO DE ASSIS, FUTEBOL E CALCINHA PRETA.
A discussão em torno da procura de uma moderna interpretação e, quiçá, de uma nova redação “Dom Casmurro” de Machado de Assis já gerou desde discussões acaloradas até a formação de grupos de extermínios.
Vejamos os exemplos de algumas facções com pretensões críticas:
Uns tentam emplacar a ideia de que Bentinho tivesse uma “vontade oculta de realizar práticas sexuais alternativas” e, assim, possuísse uma paixão secreta por Escobar; outras, mais psicologistas, vêem Capitu como uma pobre vítima de um Bentinho neurótico, um enfermo de transtorno obsessivo-compulsivo e ditador cruel.
Tudo besteira. Quem realmente conhece Machado de Assis sabe que sua sutileza não se passa em um nível tão abstrato, ela se desenvolvia nas cruéis evidências dos fatos (sim! o Bruxo de Cosme Velho tinha “sangue no zóio”!), Machado não pinta opiniões, ele destrincha fatos e para melhor entender o mundo machadiano é interessante conhecer o mundo futebolista brasileiro, pois, afinal de contas, é tudo farinha saída do mesmo moinho ontológico tupiniquim.
Nós, os amantes do futebol (e eu me incluo, sem nenhum pudor ou receio, nesse meio), sabemos das limitações, corrupções e crueldades do nosso amado esporte, porém somos todos defensores de nossa “organização criminosa”. Não somos vítimas viciadas e ignorantes, somos soldados voluntários do tradicionalismo nacional: somos terroristas contra o projeto de escandinavização do Brasil (onde os corintianos são os “homens-bomba”!) e nossa principal arma, assim como ocorre com Bentinho, é a dúvida.
Os modelos do futebol americano, europeu e japonês não nos servem. Veja o descaso com que tratamos o futebol feminino que é símbolo de igualdade e civilidade no mundo. Dissemos, às vezes, com uma leve dor na consciência: “Que pena que o futebol das mulheres não é valorizado no Brasil…”… Não gastamos, porém, três minutos para assistir a uma partida da Copa do Mundo delas. Em compensação, acompanhamos entusiasticamente a série B3 do Campeonato Paulista. Portanto, não tem jeito… Não somos e não queremos ser bons cidadãos civilizados e emancipados, somos velhos mafiosos, sempre na espreita, sempre em grupo, conspirando nas esquinas do Brasil, numa eterna confabulação em prol de nossa “irmandade cultural futebolesca”. Os boleiros brasileiros, assim como Bentinho, sempre mijarão em pé, e provavelmente fora do vaso, quando forem à Suécia.
Machado de Assis na sua maldosa genialidade acabou descrevendo o que na sua época era apenas a semente de nossa sociedade futebolística. Bentinho se relaciona com Capitu como nós nos relacionamos com o futebol. Acima de tudo o protagonista do romance ama a bela e sedutora Capitu, porém, ele sabe perfeitamente que o que ela tem de bela ela tem de mau-caratismo. Sua paixão, porém, o impede de se afastar, por isso ele lança a dúvida na tentativa de justificar o fato de estar com ela.
“Dom Casmurro” não é um livro/dúvida como a maioria das pessoas o interpreta, mas sim um livro/engano.
Bentinho tem certeza de que sua bela Capitu é uma “vagaba de 5ª categoria”. Ele entanto nos engana com suas dúvidas, abusando dos maus instintos que a nossa noção de justiça pós-moderna, politicamente correta, “sandraanenbergueana” (ver o Jornal Hoje da Rede Globo e sua âncora feliz) e sem se importar de parecer idiota, desde que não o pressionemos a abandonar sua amada.
Da mesma forma que Capitu, o futebol, com seus “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”, nos seduz, deixando como única saída digna as dúvidas e reclamações sobre sua lisura. Simples assim. Somos apenas um pouco mais sutis que Machado. Não ousamos duvidar da lisura do esporte bretão. Não diretamente… Duvidamos ao questionar a honestidade dos dirigentes dos clubes, em sua maioria gângsteres, e que fazem dos seus clubes a extensão de seus impérios; ou quando questionamos a transparência da CBF, que é composta e mantida pelos mesmos dirigentes dos clubes.
Enfim, o futebol brasileiro é uma instituição que foi feita para nunca ser totalmente honesta e mesmo assim, como Bentinho duvida da honestidade de Capitu, questionamos a integridade dos homens que dirigem esse esporte, como se algum dia pudesse haver algo diferente. A nossa defesa é o discurso da esperança de que o futebol um dia possa ser algo transparente, assim como a defesa de Bentinho é a dúvida de que Capitu possa não o ter traído. Porque no final das contas, tanto a esperança como a dúvida são sempre portas abertas para uma possível fuga.
O tal de Machado de Assis é divino e cruel, doce e maldoso, como o amor. Já Bentinho é esperto e fraco, enganado e enganador, como todos nós. E Capitu é bela e corrupta, caprichosa e arrebatadora, como o futebol.
E para expressar essa alma brasileira, não foram competentes o bastante aqueles que sempre pretenderam julgar a nação do alto de suas canções, tais como: Legião Urbana, com seu “niilismo carpidor”; ou Chico Buarque, com seu “idealismo plebeu”; ou ainda algum “cult legalzinho”… e tão pouco a filosofia “indescritível e convencida” de Caetano Veloso, mas somente nossa cultura marginal, na voz de uma banda de forró punk-brega chamada Calcinha Preta, ao cantar: “Você não vale nada, mas eu gosto de você, você não vale nada, mas eu gosto de você, tudo que eu queria era saber por quê?”.
Capitu não vale nada, mas eu gosto dela, diria Bentinho; O futebol não vale nada, mas gostamos dele, diríamos nós. Só ficando uma questão, que provavelmente nunca será respondida: o porquê.
Obs: Texto de 2012.
FELIZES INFELIZES.
17_09
QUO VADIS?
O Charruador e Outros Contos
Sinopse do livro O CHARRUADOR E OUTROS CONTOS De Gianfrancesco Tornich Pela plataforma CLUBE DE AUTORES Temos aqui um livro de contos q...
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Em um banco de rodoviária, as duas horas de uma tarde de muito calor, fui obrigado a prestar atenção na conversa de duas mulheres sen...


















